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História do Brasil

A Revolta da Vacina: o Rio de Janeiro que disse não

Em novembro de 1904, uma lei sobre vacina contra a varíola foi o estopim de uma semana de barricadas, bondes virados e tiroteios no centro da capital. Mas a revolta vinha sendo gestada havia anos — nos cortiços derrubados e nas ruas abertas à força.

Publicado em 19 de maio de 2026 · Leitura de 8 min · Reconta Brasil
Ilustração de barricadas e confronto popular nas ruas do Rio de Janeiro durante a Revolta da Vacina de 1904

Entre 10 e 16 de novembro de 1904, o povo do Rio ergueu barricadas contra a vacinação obrigatória — e contra muito mais.

O que foi a Revolta da Vacina

A Revolta da Vacina foi um motim popular que tomou o Rio de Janeiro — então Capital Federal — entre 10 e 16 de novembro de 1904. O pretexto imediato foi a lei que tornava obrigatória a vacinação contra a varíola, mas o levante reuniu uma insatisfação muito mais ampla: o ressentimento de uma população pobre que vinha sendo expulsa de suas casas pelas reformas urbanas e tratada com truculência pelo Estado.

Por seis dias, bairros inteiros do centro viraram zona de combate. Foram bondes incendiados, postes arrancados, trilhos torcidos e barricadas em ruas estreitas. O saldo oficial mais citado fala em cerca de 30 mortos, mais de uma centena de feridos e quase mil prisões.

O Rio belle-époque que queria ser Paris

No início do século XX, o Rio de Janeiro era uma cidade de contrastes brutais. A elite republicana sonhava transformá-la numa vitrine moderna, à imagem da Paris reformada por Haussmann. Ao mesmo tempo, o centro fervilhava de cortiços superlotados, onde se amontoavam trabalhadores, ex-escravizados e imigrantes pobres — sem saneamento, sem ventilação, sob constante ameaça de epidemias.

Febre amarela, peste bubônica e varíola matavam às centenas todos os anos. A cidade tinha fama internacional de "porto sujo": navios estrangeiros chegavam a evitar a baía de Guanabara. Para o presidente Rodrigues Alves, modernizar o Rio era também uma questão de prestígio nacional.

Pereira Passos e a derrubada dos cortiços

Em 1903, Rodrigues Alves nomeou o engenheiro Pereira Passos prefeito do Distrito Federal. Sua missão era reurbanizar o centro — e ele o fez com energia que ficou conhecida como "Bota-Abaixo". Ruas foram alargadas, quarteirões inteiros foram demolidos e abriu-se a larga Avenida Central, atual Avenida Rio Branco.

O custo humano recaiu sobre os mais pobres. Cortiços célebres como o Cabeça de Porco — derrubado já em 1893, antes mesmo de Passos — viraram símbolo de uma política que se intensificou: as moradias populares do centro foram postas abaixo sem que houvesse para onde mandar seus moradores. Expulsas, milhares de famílias subiram os morros próximos. Ali, naqueles anos, ganhava forma a favela carioca.

Oswaldo Cruz e a guerra ao mosquito

A frente sanitária da reforma coube ao médico Oswaldo Cruz, diretor-geral de Saúde Pública desde 1903. Ele organizou brigadas que percorriam casas e quintais para combater a febre amarela e a peste bubônica — matando mosquitos, exterminando ratos, exigindo limpeza e, quando necessário, interditando imóveis à força.

Os agentes sanitários, vistos como invasores, entravam nas casas sem pedir licença. A campanha funcionou em termos epidemiológicos — a febre amarela recuou drasticamente —, mas alimentou a sensação de uma população vigiada e violentada dentro do próprio lar.

A lei da vacinação obrigatória

Um surto de varíola que matou milhares de pessoas levou Oswaldo Cruz a propor a vacinação obrigatória. A lei nº 1.261 foi aprovada em 31 de outubro de 1904 e seu regulamento foi divulgado em 9 de novembro. O texto não só impunha a vacina como a condicionava à vida cotidiana: sem comprovante, não havia matrícula em escola, emprego, certidão de casamento nem autorização de viagem.

O regulamento foi a faísca final. Circularam boatos de que os agentes vacinariam mulheres à força, em partes do corpo consideradas íntimas. Numa cidade onde o Estado já entrava sem licença nas casas e derrubava bairros, a vacina obrigatória soou como mais uma humilhação imposta de cima.

Para a população pobre do Rio, a vacina não era só uma agulha — era o braço de um Estado que já havia derrubado sua casa e invadido seu quarto.

Seis dias de combate urbano

A revolta estourou em 10 de novembro de 1904. Estudantes, operários, trabalhadores dos bairros da Saúde, da Gamboa e do Castelo, e também os capoeiras e chefes populares conhecidos como "bambas" tomaram as ruas. Bondes foram virados e incendiados, postes de iluminação derrubados, lojas saqueadas. Em ruas estreitas, ergueram-se barricadas de paralelepípedos e móveis.

No dia 14 de novembro, somou-se ao caos uma tentativa de golpe militar: cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha, liderados pelo senador Lauro Sodré, marcharam para derrubar o governo. A coluna foi dispersada a tiros e fracassou. O governo decretou estado de sítio e mobilizou o Exército para retomar a cidade rua por rua.

O fim do levante e o que ficou

Em 16 de novembro, sob estado de sítio, o governo revogou a obrigatoriedade da vacina — um recuo tático para esvaziar a revolta. Sem a bandeira que unia os manifestantes, o levante se desfez nos dias seguintes.

A repressão foi dura. Houve quase mil prisões; centenas de pessoas, muitas com antecedentes criminais, foram deportadas para o Acre, em pleno ciclo da borracha. Os cadetes envolvidos foram desligados do Exército. A vacinação deixou de ser obrigatória, mas a varíola não foi vencida — anos depois, novos surtos voltariam a assolar o Rio.

A Revolta da Vacina entrou para a história como um dos episódios mais expressivos da Primeira República: a prova de que reformas impostas de cima, sem ouvir quem mais sofreria com elas, podiam terminar em sangue. Foi também um retrato da cidade que se modernizava expulsando os seus.

A Revolta da Vacina em datas

  • 1902 — Rodrigues Alves assume a Presidência prometendo sanear e modernizar o Rio.
  • 1903 — Pereira Passos vira prefeito e inicia o "Bota-Abaixo"; Oswaldo Cruz assume a Saúde Pública.
  • 31/10/1904 — é aprovada a lei nº 1.261, da vacinação obrigatória contra a varíola.
  • 09/11/1904 — divulgado o regulamento da lei; cresce a revolta popular.
  • 10/11/1904 — começam os confrontos nas ruas do Rio de Janeiro.
  • 14/11/1904 — fracassa o levante dos cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha.
  • 16/11/1904 — o governo decreta estado de sítio e revoga a obrigatoriedade da vacina.

Em breve, esta história em painéis ilustrados

No app Reconta Brasil, a Revolta da Vacina é uma série em produção — o Rio de 1904 contado episódio a episódio, em arte de aquarela e tinta com narração em português brasileiro.

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