João Cândido, o Almirante Negro
Neto de escravizados, ele comandou os navios de guerra mais poderosos do país e dobrou o Congresso em quatro dias. Depois, o Brasil tentou apagá-lo. Não conseguiu.
João Cândido Felisberto, o marinheiro gaúcho que os jornais do Rio batizaram de "Almirante Negro".
Um menino nascido entre dois mundos
João Cândido Felisberto nasceu em 1880, na cidade de Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul. Veio ao mundo numa casa de chão batido, filho de uma família afro-brasileira pobre. Seu pai, Felisberto, ainda era escravizado numa fazenda da região — João Cândido nasceu, portanto, oito anos antes da abolição.
Quando a Lei Áurea chegou, em 1888, o menino tinha oito anos. A liberdade veio sem terra e sem trabalho: a família continuou na mesma fazenda. A única mudança concreta para o pequeno João Cândido foi simbólica e enorme — a partir dali, ele não podia mais ser vendido.
Da tropa de gado à Marinha
Ainda menino, João Cândido trabalhou tropeando gado pelo pampa gaúcho. Aos 13 anos, entrou para a Marinha de Guerra. Não era exatamente uma escolha: o serviço militar levava os jovens pobres, muitas vezes recrutados à força, para uma carreira dura e mal paga.
Na Marinha, João Cândido se revelou um marinheiro competente e respeitado pelos companheiros. Subiu na hierarquia da tropa de baixa patente e se tornou uma liderança natural a bordo. Mas, como todo marinheiro negro e pobre, vivia sob a ameaça constante de um castigo herdado da escravidão: a chibata.
O treinamento na Inglaterra
Em 1907, João Cândido esteve na Inglaterra, ajudando a treinar a tripulação de um dos novos encouraçados que o Brasil havia encomendado aos estaleiros britânicos. Foi uma experiência decisiva.
Ali, ele constatou de perto uma contradição gritante: a poderosa Marinha britânica já havia abolido o açoite havia décadas, enquanto o Brasil — que comprava da Inglaterra os navios mais modernos do mundo — continuava chicoteando seus marinheiros. Aquela viagem plantou a certeza de que o castigo não era "disciplina": era atraso e humilhação.
O líder da revolta
Em novembro de 1910, o açoite de 250 chibatadas aplicado ao marinheiro Marcelino Menezes foi o estopim. Na noite de 22 de novembro, João Cândido assumiu o comando do levante. Sob sua liderança, marinheiros tomaram quatro navios de guerra na Baía de Guanabara, entre eles os encouraçados Minas Gerais e São Paulo.
Foi nessa hora que os jornais do Rio o batizaram: "Almirante Negro". João Cândido comandava a frota mais moderna da América do Sul com os canhões apontados para a capital — e, ainda assim, mantinha a disciplina e proibia saques e violência desnecessária. Não queria poder. Queria o fim da chibata. Em quatro dias, o Congresso cedeu: o castigo corporal foi abolido e a anistia, concedida.
Cumprimos a palavra. Esperamos que o Estado cumpra a sua.
A anistia traída
O Estado não cumpriu. Poucos dias depois da anistia, a Marinha começou a expulsar e perseguir os revoltosos. Um novo motim na Ilha das Cobras, em dezembro de 1910, serviu de pretexto para a repressão total.
João Cândido foi preso e trancado, com outros dezessete marinheiros, numa cela da Ilha das Cobras feita para caber seis pessoas. Sob o pretexto de desinfecção, os carcereiros jogaram cal no ambiente fechado. Apenas dois homens sobreviveram àquela noite — e João Cândido foi um deles. Em seguida, foi internado e julgado. Acabou absolvido em 1912, mas saiu da Marinha quebrado e marcado para sempre.
O esquecimento
Livre, mas sem farda e sem reconhecimento, João Cândido foi obrigado a recomeçar do zero. Trabalhou como estivador no Cais do Porto do Rio de Janeiro e vendeu peixe num mercado de São Cristóvão. Casou-se, teve filhos e viveu décadas na pobreza, na periferia da então capital federal.
A história oficial o tratou como se ele não existisse. O homem que havia comandado a maior revolta naval do Brasil e forçado o fim de uma tortura legal envelheceu no anonimato. João Cândido Felisberto morreu em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos, pobre. A notícia de sua morte saiu em poucas linhas, perdida nas páginas internas dos jornais.
O samba que o resgatou
O resgate veio pela música. Em 1974, em plena ditadura militar, os músicos João Bosco e Aldir Blanc compuseram "O Mestre-Sala dos Mares", uma homenagem cifrada a João Cândido. A letra falava de um "bravo feiticeiro" e de um "dragão do mar" — imagens escolhidas em código para driblar a censura. Gravada por Elis Regina, a canção tornou-se um clássico e devolveu o Almirante Negro à memória do país.
O reconhecimento oficial demorou ainda mais. Só em 2008 — quase um século depois da revolta — a Lei nº 11.756 concedeu anistia póstuma a João Cândido e aos marinheiros revoltosos. Tarde, muito tarde. Mas o nome que o Brasil tentou apagar tornou-se, enfim, parte permanente da sua história.
João Cândido em datas
- 1880 — nasce em Encruzilhada do Sul (RS), filho de família afro-brasileira pobre.
- 1888 — a Lei Áurea liberta seu pai; João Cândido tem oito anos.
- 1893 — entra para a Marinha de Guerra, aos 13 anos.
- 1907 — treina tripulação na Inglaterra e vê a Marinha britânica sem o açoite.
- 22/11/1910 — lidera a Revolta da Chibata e toma quatro navios de guerra.
- 1910–1912 — preso na Ilha das Cobras, sobrevive à cela de cal; é absolvido.
- 06/12/1969 — morre pobre, aos 89 anos, no Rio de Janeiro.
- 1974 — "O Mestre-Sala dos Mares" o devolve à memória nacional.
- 2008 — a Lei nº 11.756 concede anistia póstuma aos revoltosos.
Conheça a história do Almirante Negro em painéis ilustrados
No app Reconta Brasil, a Revolta da Chibata é uma série completa — episódio a episódio, em arte em aquarela e tinta, com narração em português brasileiro.
Conhecer o app