A Guerra de Canudos: o massacre de Belo Monte no sertão da Bahia
Entre 1896 e 1897, o jovem Exército republicano enviou quatro expedições contra um povoado de sertanejos pobres no interior da Bahia. Três foram derrotadas. A quarta destruiu tudo — e não fez prisioneiros.
Belo Monte, no vale do rio Vaza-Barris, chegou a abrigar entre quinze e trinta mil pessoas.
O que foi a Guerra de Canudos
A Guerra de Canudos foi o conflito armado que opôs, entre 1896 e 1897, o Exército da recém-proclamada República a uma comunidade religiosa do sertão da Bahia: o arraial de Belo Monte, erguido sobre uma antiga fazenda chamada Canudos. Liderada pelo beato Antônio Conselheiro, a comunidade reunia milhares de sertanejos pobres — retirantes da seca, ex-escravizados, lavradores sem terra — em busca de um lugar para viver e rezar.
Não era uma revolta nem um exército rebelde. Mas a imprensa republicana convenceu o país de que Canudos era um foco monarquista, uma ameaça à jovem República. O resultado foi uma campanha militar que terminou em massacre, com a destruição completa do arraial em outubro de 1897 e a morte de milhares de pessoas.
O sertão antes da guerra
O fim do século XIX foi brutal para o sertão nordestino. A Grande Seca de 1877 matou, segundo as estimativas, cerca de trezentas mil pessoas em três anos e empurrou multidões pelos caminhos. A Lei Áurea de 1888 libertou os escravizados sem dar-lhes terra nem trabalho. A Proclamação da República, em 1889, separou Igreja e Estado, criou o casamento civil e cobrou novos impostos — mudanças que, para o sertanejo católico, soavam como o avanço de um poder estranho e hostil.
Foi nesse mundo de fome, abandono e medo que a pregação de Antônio Conselheiro encontrou eco. Ele andava pelo Nordeste havia trinta anos, reconstruindo capelas e cemitérios, e era seguido por uma multidão crescente de fiéis.
A fundação de Belo Monte
O conflito direto começou antes do arraial. Em 26 de maio de 1893, na vila de Maceté, trinta praças da polícia baiana foram enviados para expulsar o Conselheiro — e foram derrotados pelos seus seguidores. Depois do episódio, ele migrou com sua coluna para o vale do rio Vaza-Barris e ali, ainda em 1893, ocupou a fazenda velha de Canudos, que rebatizou de Belo Monte.
O arraial cresceu depressa. Em poucos anos tinha milhares de casas de taipa, lavoura coletiva, comércio com as vilas vizinhas, casamentos registrados e uma rotina de trabalho e oração. Belo Monte chegou a ser, em população, uma das maiores cidades da Bahia da época — atrás apenas de Salvador.
Por que o sertão virou inimigo
O pretexto da guerra foi pequeno. Em 1896, uma disputa por madeira encomendada e não entregue, na cidade de Juazeiro, virou um incidente de polícia. A imprensa republicana, porém, transformou o caso numa cruzada: Canudos seria um reduto de fanáticos a serviço da restauração da monarquia. O medo, alimentado por jornais e por políticos, fez o resto.
Mate-se o Conselheiro e o sertão dorme em paz.
A frase, atribuída ao coronel Moreira César antes de marchar para o sertão, resume a leitura que a República fazia de Canudos: um problema a ser eliminado, não compreendido.
As quatro expedições
A primeira expedição saiu em novembro de 1896: o tenente Pires Ferreira, com cerca de cem soldados, foi derrotado em Uauá. A segunda, comandada pelo major Febrônio de Brito com algumas centenas de homens, caiu na Serra do Cambaio em janeiro de 1897 — cerco, fome e retirada.
A terceira foi a mais traumática para o país. O coronel Antônio Moreira César, apelidado "Corta-Cabeças" pela violência com que reprimira federalistas no Sul, levou cerca de 1.300 homens e artilharia. Em março de 1897, foi ferido de morte liderando o ataque a Belo Monte e morreu em 4 de março. A expedição inteira se desfez. O pânico tomou conta das cidades.
A reação foi desproporcional. O general Arthur Oscar comandou a quarta expedição, que reuniu até doze mil homens e tropas de dezessete estados — a maior força militar já empregada num conflito interno brasileiro. O marechal Bittencourt, ministro da Guerra, instalou-se pessoalmente em Monte Santo para organizar a logística.
A queda de Belo Monte
O cerco final foi longo e cruel. A artilharia federal — entre ela o canhão britânico apelidado de "A Matadeira" — pulverizava as casas de taipa enquanto os defensores resistiam rua por rua. Antônio Conselheiro morreu no santuário em 22 de setembro de 1897, provavelmente de disenteria. A defesa, ainda assim, não cessou: comandantes como João Abade e a Guarda Católica seguiram lutando, e mulheres pegaram em armas ao lado dos homens.
Em 5 de outubro de 1897, Belo Monte caiu. Segundo a frase consagrada por Euclides da Cunha, quando o arraial tombou ainda resistiam quatro homens. A guerra praticamente não fez prisioneiros: centenas — talvez milhares — de sobreviventes, em larga maioria mulheres, crianças e idosos, foram degolados num eufemismo brutal que a tropa chamava de "gravata vermelha". A cabeça do Conselheiro foi exumada e levada para "estudo" frenológico em Salvador.
Os Sertões e a memória de Canudos
Quem fixou Canudos na consciência do país foi Euclides da Cunha, engenheiro militar e jornalista que acompanhou a quarta expedição como correspondente. Em 1º de dezembro de 1902, publicou Os Sertões: campanha de Canudos, livro que denunciou o massacre e se tornou uma pedra fundamental da literatura brasileira — mesmo carregando o viés racialista típico de sua época.
Por décadas, porém, Canudos foi mais silenciado do que estudado. Só ao longo do século XX a pesquisa histórica recuperou a complexidade do arraial. Em 2019, Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria — um reconhecimento tardio de que Belo Monte não foi um surto de fanatismo, mas uma comunidade de gente pobre tentando sobreviver.
Por que Canudos ainda importa
A Guerra de Canudos expõe os limites da Primeira República: uma elite urbana que não enxergava o sertão e respondia à pobreza com fuzil. É também a história de pessoas comuns que construíram, no meio da caatinga, uma vida coletiva organizada. Estudar Canudos é entender como o Brasil moderno nasceu — e a quem custou.
Canudos em datas
- 1877 — a Grande Seca devasta o sertão e multiplica os retirantes.
- 26/05/1893 — confronto de Maceté: a polícia baiana é derrotada.
- 1893 — Antônio Conselheiro funda o arraial de Belo Monte.
- nov. 1896 — 1ª expedição (Pires Ferreira) é derrotada em Uauá.
- jan. 1897 — 2ª expedição (Febrônio de Brito) cai na Serra do Cambaio.
- 04/03/1897 — morre Moreira César; a 3ª expedição se desfaz.
- 22/09/1897 — morre Antônio Conselheiro no santuário.
- 05/10/1897 — Belo Monte cai após o cerco da 4ª expedição.
- 01/12/1902 — Euclides da Cunha publica Os Sertões.
- 2019 — o Conselheiro entra no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
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