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História do Brasil

A Revolta da Chibata: os marinheiros contra o açoite

Vinte e dois anos depois da abolição, o Brasil ainda chicoteava homens negros — agora de farda. Em novembro de 1910, eles tomaram os navios de guerra mais modernos da América do Sul e disseram: acabou.

Publicado em 19 de maio de 2026 · Leitura de 9 min · Reconta Brasil
Ilustração de marinheiros amotinados no convés de um encouraçado na Baía de Guanabara, 1910

Na noite de 22 de novembro de 1910, marinheiros tomaram quatro encouraçados na Baía de Guanabara.

O açoite que a abolição não levou

A Lei Áurea, de 1888, aboliu a escravidão no Brasil. Mas não aboliu a chibata. Dentro da Marinha de Guerra, o castigo físico continuava previsto em regulamento: o marinheiro acusado de indisciplina era amarrado e açoitado diante da tripulação inteira, obrigada a assistir. Era a mesma violência da senzala, transferida para o convés de um navio do Estado republicano.

A tropa de baixa patente da Marinha era, em sua maio, formada por homens negros e pobres — muitos recrutados à força. Os oficiais, brancos e de famílias abastadas, mandavam aplicar o açoite. A fenda racial era tão explícita que a chibata se tornou o símbolo de uma República que prometia igualdade e mantinha a tortura legalizada.

Os encouraçados que vieram da Inglaterra

Em 1910, o Brasil exibia uma frota de orgulho. Quatro grandes navios de guerra — entre eles os encouraçados Minas Gerais e São Paulo, construídos nos estaleiros britânicos — faziam da esquadra brasileira uma das mais modernas do mundo. Eram os dreadnoughts, a última palavra em poder naval.

Foi treinando essas tripulações na Inglaterra que muitos marinheiros perceberam o absurdo da própria situação. A Marinha britânica havia abolido o açoite ainda no século XIX. O Brasil comprava os navios mais avançados do planeta — e continuava chicoteando os homens que operavam os canhões. O contraste era impossível de ignorar.

O castigo de Marcelino Menezes

O estopim tinha nome. Em novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, do encouraçado Minas Gerais, foi condenado a 250 chibatadas — dez vezes o máximo previsto pelo próprio regulamento. O castigo foi aplicado no convés, diante de toda a tripulação obrigada a assistir.

Marcelino desmaiou e teve as costas dilaceradas. Para os marinheiros, aquilo não foi apenas mais uma punição: foi a prova de que a vida deles não valia nada. A revolta, que já vinha sendo organizada havia meses em segredo, ganhou data.

A nossa frota é a mais moderna do mundo. E os homens que carregam esses canhões ainda são chibateados como se fossem gado no curral.

A noite de 22 de novembro

Na noite de 22 de novembro de 1910, um tiro de sinal partiu do Minas Gerais. Era a senha. Em poucas horas, os marinheiros assumiram o controle de quatro navios de guerra ancorados na Baía de Guanabara, incluindo os dois encouraçados. O comandante do Minas Gerais, João Batista das Neves, reagiu e foi morto no convés.

À frente do levante estava João Cândido Felisberto, marinheiro gaúcho de 30 anos, neto de escravizados. Os jornais do Rio logo o apelidaram de "Almirante Negro". Os revoltosos não queriam tomar o poder nem derrubar o governo: queriam o fim da chibata, melhores condições a bordo e anistia para os participantes. Apontaram os canhões para a cidade do Rio de Janeiro — a capital da República — e esperaram a resposta.

O manifesto e a vitória

A bordo, o marinheiro cearense Francisco Dias Martins redigiu o manifesto dos revoltosos. As exigências eram diretas: abolição do açoite, anistia, melhoria do rancho e instrução que permitisse aos marinheiros subir de posto. Não havia projeto político — havia um pedido de dignidade.

A pressão funcionou. Com os canhões apontados para a capital e a opinião pública dividida, o Congresso agiu rápido. O senador Rui Barbosa, uma das maiores vozes do país, defendeu publicamente os marinheiros e a anistia. Em 25 de novembro de 1910, o governo do marechal Hermes da Fonseca aprovou o decreto que abolia os castigos corporais na Marinha e concedia anistia plena aos revoltosos. Vitoriosos, os marinheiros entregaram os navios.

A traição

A vitória durou pouco. Poucos dias depois de assinada a anistia, o governo começou a descumpri-la. Centenas de marinheiros foram expulsos da Marinha sob a alegação de indisciplina. Em 9 de dezembro de 1910, um novo motim — desta vez na Ilha das Cobras — deu ao governo o pretexto para o endurecimento total. Foi decretado estado de sítio.

Veio então o episódio mais sombrio. Em véspera de Natal, dezoito marinheiros foram trancados numa cela da Ilha das Cobras projetada para caber seis. Sob o pretexto de "desinfetar" o ambiente, os carcereiros jogaram cal dentro da cela fechada. Apenas dois sobreviveram — e João Cândido foi um deles.

O degredo na Amazônia

Os sobreviventes da repressão não foram libertados: foram degredados para a Amazônia. Embarcados rumo aos seringais do Alto Rio Negro, foram submetidos a trabalho forçado em condições brutais — febre, malária e fome dizimaram o grupo. Vários morreram em poucos meses.

João Cândido sobreviveu também a isso. Voltou ao Rio de Janeiro degradado a marinheiro raso, sem farda, sem reconhecimento. Foi, depois, julgado e absolvido — mas a Marinha já o havia apagado. O homem que liderou a maior revolta naval da história do Brasil terminou a vida como estivador no Cais do Porto, vendendo peixe para sustentar a família. A história oficial, por décadas, simplesmente o calou.

A Revolta da Chibata em datas

  • 1888 — a Lei Áurea abole a escravidão, mas não o açoite na Marinha.
  • 1910 — chega ao Rio a esquadra moderna, com os encouraçados Minas Gerais e São Paulo.
  • nov. 1910 — Marcelino Menezes recebe 250 chibatadas no Minas Gerais.
  • 22/11/1910 — começa a revolta; quatro navios são tomados em poucas horas.
  • 25/11/1910 — decreto abole o castigo corporal e concede anistia.
  • 09/12/1910 — novo motim na Ilha das Cobras; estado de sítio.
  • 1911 — sobreviventes são degredados aos seringais do Alto Rio Negro.

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