A Guerra do Paraguai: a maior guerra da história sul-americana
Entre 1864 e 1870, Brasil, Argentina e Uruguai uniram-se contra o Paraguai no mais longo e mais sangrento conflito já travado na América do Sul. Ao final, um país inteiro estava em ruínas.
A Guerra do Paraguai durou quase seis anos e mobilizou cinco países sul-americanos.
O que foi a Guerra do Paraguai
A Guerra do Paraguai — também chamada Guerra da Tríplice Aliança — foi o conflito armado mais longo e mais letal da história da América do Sul. Estendeu-se de dezembro de 1864 a março de 1870 e opôs o Paraguai a uma aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai.
Foi uma guerra de proporções enormes para a região: centenas de milhares de mortos, exércitos de dezenas de milhares de homens, batalhas navais decisivas e uma campanha terrestre que se arrastou por anos sobre rios, pântanos e fortalezas. No Brasil, o conflito moldou o Exército, expôs a fragilidade da escravidão e abalou o próprio Império.
As causas do conflito
A região do Prata vivia, no início dos anos 1860, uma disputa permanente por influência. Brasil e Argentina rivalizavam pelo controle político da bacia platina, enquanto o Uruguai era palco de uma guerra civil entre os partidos Colorado e Blanco. O Paraguai, governado por Francisco Solano López, havia se transformado num Estado militarizado e queria afirmar-se como potência regional.
O estopim veio em 1864, quando o Brasil interveio militarmente no Uruguai em apoio aos colorados. Solano López, aliado dos blancos, viu na ação uma ameaça ao equilíbrio do Prata. Em novembro de 1864, mandou aprisionar o navio brasileiro Marquês de Olinda no rio Paraguai e, em seguida, ordenou a invasão da província de Mato Grosso.
A invasão de Mato Grosso
A guerra começou, para o Brasil, pelo flanco mais frágil. As tropas paraguaias invadiram o sul de Mato Grosso no fim de 1864, tomando fortes e povoados de uma região isolada e mal defendida. Em seguida, López avançou também sobre território argentino, na província de Corrientes, atravessando o país que pretendia neutralizar.
Foi essa ofensiva dupla — contra Brasil e Argentina — que cimentou a aliança contra o Paraguai.
A Tríplice Aliança
Em 1º de maio de 1865, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o Tratado da Tríplice Aliança, formalizando a coligação militar. O acordo definia o comando conjunto das forças e estabelecia, entre outras coisas, que a guerra só terminaria com a queda de Solano López.
Na prática, o Brasil acabou arcando com a maior parte do esforço de guerra — em homens, navios e dinheiro. O Império recrutou tropas em massa, e parte do contingente foi formada pelos chamados Voluntários da Pátria, além de escravizados libertados especificamente para servir, o que tornou a guerra um dos fatores que minaram o sistema escravista brasileiro.
Riachuelo e o domínio dos rios
O primeiro grande golpe veio na água. Em 11 de junho de 1865, a esquadra brasileira derrotou a marinha paraguaia na Batalha Naval do Riachuelo, no rio Paraná. A vitória foi decisiva: garantiu à aliança o controle dos rios da bacia platina, principal via de transporte e abastecimento da região.
Quem dominava os rios dominava a guerra. Depois de Riachuelo, o Paraguai perdeu a iniciativa e passou a lutar na defensiva, dentro do próprio território.
Sem poder mais avançar, López recuou para uma linha de fortificações no sul do Paraguai e transformou o conflito numa longa guerra de cercos e trincheiras.
Tuiuti, Curupaiti e Humaitá
A campanha terrestre foi brutal. Em 24 de maio de 1866, a Batalha de Tuiuti — a maior batalha campal da história sul-americana — resultou em milhares de mortos e numa vitória aliada, embora sem desfecho definitivo.
Poucos meses depois, em setembro de 1866, a Batalha de Curupaiti foi um desastre para os aliados: um ataque mal coordenado contra posições paraguaias fortificadas causou milhares de baixas em poucas horas. A derrota gerou uma crise de comando e fez a guerra estagnar.
A virada veio com a chegada de Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, ao comando das forças brasileiras. Caxias reorganizou o exército, cuidou da logística e da saúde da tropa, e conduziu a ofensiva que levou à conquista da poderosa fortaleza de Humaitá, em fevereiro de 1868, e à tomada da capital paraguaia, Assunção, no início de 1869.
Cerro Corá: a queda de Solano López
Mesmo com Assunção ocupada, Solano López recusou-se a se render. Refugiou-se no interior e arrastou a guerra por mais de um ano numa retirada cada vez mais desesperada — a chamada Campanha das Cordilheiras —, agora liderada do lado aliado pelo Conde d'Eu, genro do imperador D. Pedro II.
O fim veio em 1º de março de 1870, na Batalha de Cerro Corá. Cercado, Solano López foi morto, encerrando o conflito. Conta-se que suas últimas palavras teriam sido "morro com a minha pátria" — frase muito repetida, embora cercada de controvérsia entre os historiadores.
O preço da guerra
A Guerra do Paraguai deixou um rastro devastador. O país derrotado foi o que mais sofreu: perdeu uma parcela imensa de sua população — as estimativas variam bastante, mas falam em algo entre metade e dois terços dos habitantes de antes da guerra —, perdeu território e teve sua economia arruinada por décadas.
Para o Brasil, o saldo também foi profundo. Dezenas de milhares de mortos, uma dívida enorme, e um Exército que saiu da guerra fortalecido, prestigiado e mais consciente de seu peso político — um dos fatores que levariam à Proclamação da República em 1889. A guerra também acelerou o debate sobre o fim da escravidão. Foi, em todos os sentidos, um divisor de águas para a região.
A Guerra do Paraguai em datas
- novembro de 1864 — Paraguai aprisiona o navio Marquês de Olinda e invade Mato Grosso.
- 1º/05/1865 — assinatura do Tratado da Tríplice Aliança.
- 11/06/1865 — Batalha Naval do Riachuelo: domínio aliado dos rios.
- 24/05/1866 — Batalha de Tuiuti, a maior batalha campal da América do Sul.
- setembro de 1866 — derrota aliada em Curupaiti.
- fevereiro de 1868 — queda da fortaleza de Humaitá.
- 1º/03/1870 — morte de Solano López em Cerro Corá; fim da guerra.
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