A Revolução Constitucionalista de 1932: os 87 dias de São Paulo
Em 1932, São Paulo pegou em armas contra o governo de Getúlio Vargas exigindo uma Constituição. Perdeu a guerra em pouco menos de três meses — mas o motivo do conflito venceu dois anos depois.
Soldados paulistas em campanha: a Revolução Constitucionalista durou de julho a outubro de 1932.
O Brasil sem Constituição
A Revolução Constitucionalista de 1932 só se entende a partir do que veio antes. Em 1930, um golpe armado depôs o presidente Washington Luís e impediu a posse do paulista Júlio Prestes, eleito mas levado ao exílio. Quem assumiu o poder foi Getúlio Vargas, à frente de um governo provisório.
O governo provisório era exatamente isso: provisório. Vargas governava por decreto, sem Congresso e sem Constituição. A Carta de 1891 fora suspensa, e a promessa de convocar uma nova assembleia constituinte não saía do papel. Para São Paulo — Estado mais rico e politicamente mais poderoso da Federação até 1930 —, o novo regime somava humilhação política à perda de influência.
O estopim: um interventor de fora
O atrito ganhou rosto. Vargas nomeou para o governo de São Paulo um interventor — não um governador eleito —, e o escolhido era João Alberto Lins de Barros, militar pernambucano sem laços com a política paulista. Para a elite e a opinião pública do Estado, mandar um forasteiro governar São Paulo era a prova de que o regime tratava a maior província da União como território conquistado.
A reação uniu adversários históricos. O Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Democrático (PD), rivais de longa data, selaram uma aliança em torno de uma única bandeira: a volta do Brasil à legalidade constitucional.
O comício da Praça da Sé
Em 25 de janeiro de 1932, debaixo de chuva, cerca de duzentas mil pessoas se reuniram na Praça da Sé, em São Paulo. Do alto de um caminhão, o advogado Ibrahim Nobre resumiu o sentimento da multidão numa frase que viraria palavra de ordem do movimento: "Devolvam-nos a Constituição."
Não era ainda um chamado às armas, mas a cidade estava politizada. Jornais como O Estado de S. Paulo, dirigido por Júlio de Mesquita Filho, tornaram-se centros da articulação civil. A campanha pela constitucionalização cresceu ao longo do primeiro semestre.
Os quatro mártires do MMDC
O conflito virou sangue em 23 de maio de 1932. Num protesto no centro de São Paulo, diante da sede de um partido pró-governo, tropas abriram fogo contra os manifestantes. Quatro jovens morreram: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo — as iniciais formaram a sigla MMDC, que batizou a sociedade civil clandestina criada para preparar a revolta. Um quinto ferido, Alvarenga, morreu meses depois e ficou de fora da sigla original.
Quatro nomes viraram quatro letras. O MMDC não foi um exército — foi a cidade inteira se organizando para a guerra que ainda não tinha começado.
Os funerais reuniram multidões e transformaram os quatro mortos em mártires de uma causa. A partir daí, a constitucionalização deixou de ser apenas um debate de jornal e passou a ser uma mobilização armada em preparação.
9 de julho: a sublevação
Em 9 de julho de 1932, São Paulo deflagrou a revolta. Tropas paulistas tomaram pontos estratégicos da capital e o Estado se declarou em armas contra o governo federal. O general Bertoldo Klinger, que dias antes havia provocado Vargas com uma carta deliberadamente insolente, assumiu a liderança militar; Pedro de Toledo, diplomata aposentado de 71 anos, foi aclamado governador da causa, e logo a bandeira paulista subiu sobre os prédios oficiais.
O 9 de julho é até hoje a data magna do Estado de São Paulo. O plano paulista apostava numa vitória rápida e na adesão de outros Estados — adesão que, na prática, quase não veio. São Paulo lutou praticamente sozinho contra a maior parte das forças da União.
A guerra: engenharia, trincheira e improviso
A revolta foi uma guerra civil de verdade, com frentes de combate no Vale do Paraíba, no sul de Minas e na divisa com o Paraná. E foi marcada pela desigualdade de recursos: o governo federal tinha mais homens, mais munição e bloqueava o abastecimento de São Paulo.
Os paulistas responderam com improviso e engenharia. Locomotivas foram blindadas em poucos dias por engenheiros da Escola Politécnica e transformadas em trens blindados — o TB-1 e seus sucessores —, usados para avançar sobre as frentes de batalha. A indústria paulista produziu capacetes, munição e até um tanque artesanal. A guerra também teve seus reveses absurdos, como ofensivas frustradas por munição de calibre incompatível com os fuzis.
As mulheres na revolução
A mobilização de 1932 envolveu a sociedade civil de um modo incomum para a época, e as mulheres tiveram papel central. A médica Carlota Pereira de Queirós organizou uma brigada feminina de socorro com centenas de voluntárias — uma das primeiras mobilizações médicas femininas de grande escala do país. Depois da guerra, em 1934, Carlota tornou-se a primeira deputada federal eleita no Brasil.
Houve também a Campanha do Ouro: mulheres paulistas doaram alianças, joias e pratarias para financiar o esforço de guerra, recebendo em troca um simples anel de ferro. E houve casos como o da professora viúva Maria Sguassábia, que cortou os cabelos, vestiu calças e se alistou sob nome masculino para combater na linha de frente.
A rendição — e a vitória política
Cercado, sem reforços e sem condições de furar o bloqueio federal, São Paulo se rendeu no início de outubro de 1932, formalizando o fim dos combates em 3 de outubro, cerca de três meses depois do 9 de julho. Militarmente, foi uma derrota clara.
Politicamente, porém, a história foi outra. O governo Vargas, pressionado, acelerou a redemocratização: convocou eleições para uma Assembleia Constituinte, que promulgou a Constituição de 1934 — exatamente o que São Paulo havia exigido na Praça da Sé. A Revolução de 1932 perdeu a guerra e ganhou o seu motivo. É lembrada como a maior guerra civil do Brasil no século XX e como um marco da identidade paulista.
A Revolução de 1932 em datas
- 1930 — golpe leva Vargas ao poder; o Brasil fica sem Constituição.
- 25/01/1932 — comício da Praça da Sé: "Devolvam-nos a Constituição."
- 23/05/1932 — mortos os quatro jovens do MMDC.
- 9/07/1932 — São Paulo deflagra a revolta armada.
- julho–setembro de 1932 — guerra nas frentes, trens blindados e Campanha do Ouro.
- 3/10/1932 — São Paulo se rende; fim dos combates.
- 1934 — promulgada a nova Constituição.
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