A Revolução Farroupilha: dez anos de guerra no Sul do Brasil
De 1835 a 1845, o Rio Grande do Sul se levantou contra o Império e chegou a proclamar uma república própria. Foi a revolta mais longa da história do Brasil — e a mais cheia de contradições.
No pampa gaúcho, estancieiros e peões sustentaram dez anos de guerra contra o Império.
O que foi a Revolução Farroupilha
A Revolução Farroupilha — também chamada de Guerra dos Farrapos — foi uma revolta que durou de 1835 a 1845, na então província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Os revoltosos, apelidados de "farrapos" pelos adversários, chegaram a romper com o Império e a proclamar uma república independente.
Foi o mais longo dos conflitos do Período Regencial — uma década inteira de guerra. E também o mais ambíguo: começou como protesto econômico de uma elite de estancieiros, ganhou tons republicanos e separatistas, e terminou com uma das traições mais sombrias da história do Brasil escravista.
A crise do charque
A raiz da revolta era econômica. O Rio Grande do Sul produzia charque — a carne salgada e seca que alimentava as populações escravizadas do Brasil — e couro. Mas o charque dos países vizinhos, sobretudo do Uruguai, entrava no mercado brasileiro pagando pouco ou nenhum imposto, enquanto o produto gaúcho era taxado pesadamente.
Os estancieiros do sul viam seus preços despencar e acusavam o governo central de favorecer a concorrência estrangeira. Somavam-se a isso queixas políticas: a elite rio-grandense queria mais autonomia e mais poder de decisão sobre a própria província. A pólvora estava seca havia tempo.
Bento Gonçalves e o início da guerra
Em 20 de setembro de 1835, os farrapos tomaram Porto Alegre, e o presidente da província fugiu. Essa data, hoje, é o marco simbólico da revolução. À frente do movimento estava Bento Gonçalves da Silva, estancieiro e militar prestigiado, que se tornaria o grande líder da causa farroupilha.
A guerra teve reveses logo cedo. Em 1836, Bento Gonçalves foi preso pelas forças imperiais e enviado a uma fortaleza na Bahia. Sua fuga, em 1837 — escapando da prisão e cruzando o sertão disfarçado —, virou parte da lenda farroupilha.
A República Rio-Grandense
Mesmo com Bento preso, a revolta avançou. Em 11 de setembro de 1836, após a vitória no Combate do Seival, o general Antônio de Souza Netto proclamou a República Rio-Grandense, com capital em Piratini. Erguia-se a bandeira tricolor — verde, vermelha e amarela — que até hoje é a bandeira do estado.
A jovem república teve estrutura de Estado: ministério, imprensa, diplomacia. Bento Gonçalves seria seu presidente; o mineiro Domingos José de Almeida, radicado no sul, foi a alma administrativa do governo, cuidando das finanças e da organização civil enquanto os generais combatiam.
A República Rio-Grandense durou quase dez anos, teve bandeira, ministério e exército próprios — mas nunca foi reconhecida por nenhuma outra nação.
Garibaldi, Anita e a República Juliana
Entre os que se juntaram aos farrapos estava o revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, que passou a comandar a pequena frota da república. Levando a guerra ao litoral de Santa Catarina, os farrapos tomaram a cidade de Laguna em 1839 e ali proclamaram a efêmera República Juliana.
Foi em Laguna que Garibaldi conheceu Anita — Ana Maria de Jesus Ribeiro —, que passou a combater a cavalo ao seu lado. Anos depois, o casal levaria a mesma luta à Europa, na unificação da Itália. Anita morreria em 1849, fugindo de tropas austríacas, e entraria para a história como a "heroína de dois mundos".
Os Lanceiros Negros e o massacre de Porongos
Um dos capítulos mais dolorosos da guerra envolve os Lanceiros Negros: tropas formadas por homens escravizados a quem a República prometeu liberdade em troca de combate. Sob o comando do coronel Joaquim Teixeira Nunes, foram um dos maiores corpos militares negros do Brasil do século XIX.
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, na coxilha de Porongos, o acampamento farrapo foi atacado de surpresa pela cavalaria imperial. Os Lanceiros Negros, segundo a tradição, haviam sido desarmados na véspera por ordem do general Davi Canabarro — e foram massacrados quase sem defesa. Para muitos historiadores, foi uma traição combinada: a paz já se desenhava, e os negros armados, prometidos liberdade, eram um obstáculo inconveniente.
Caxias e a Paz de Ponche Verde
O fim da guerra foi obra de Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias. Em vez de buscar uma vitória militar esmagadora, ele apostou na negociação: aproximou-se dos estancieiros, ofereceu condições honrosas e foi desidratando a revolta.
Em 1º de março de 1845, Davi Canabarro assinou com o Império a Paz de Ponche Verde. Os farrapos brancos receberam anistia e mantiveram patentes e propriedades. Mas a paz teve um lado cruel: muitos dos negros que haviam lutado pela promessa de liberdade voltaram à escravidão. A República Rio-Grandense se dissolveu. Bento Gonçalves morreria dois anos depois, em 1847.
O legado da Farroupilha
A Revolução Farroupilha ocupa lugar central na identidade do Rio Grande do Sul: o 20 de setembro é feriado estadual, e a Semana Farroupilha celebra todos os anos a memória dos farrapos. Mas a história contada nas festas costuma ser idealizada — heroica, romântica, sem sombras.
A historiografia mais recente recoloca as perguntas difíceis: a revolta foi sobretudo um movimento de uma elite de estancieiros escravistas, e a promessa de liberdade aos Lanceiros Negros terminou em traição. Conhecer a Farroupilha por inteiro — com sua República, seus heróis e o massacre de Porongos — é entender o quanto a história do Brasil mistura grandeza e contradição.
A Revolução Farroupilha em datas
- 1834 — a crise do charque empobrece os estancieiros gaúchos.
- 20/9/1835 — os farrapos tomam Porto Alegre; começa a guerra.
- 11/9/1836 — Souza Netto proclama a República Rio-Grandense em Piratini.
- 1837 — Bento Gonçalves foge da prisão na Bahia.
- 1839 — tomada de Laguna e proclamação da República Juliana.
- 14/11/1844 — massacre dos Lanceiros Negros em Porongos.
- 1º/3/1845 — Paz de Ponche Verde encerra a guerra.
- 1847 — morte de Bento Gonçalves.
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