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História do Brasil

A Cabanagem: a revolta popular que tomou a Amazônia

Entre 1835 e 1840, o povo do Grão-Pará — caboclos, indígenas, escravos fugidos e fazendeiros liberais — tomou Belém de armas na mão. Foi a revolta mais radical do Brasil regencial, e também a mais letal.

Publicado em 19 de maio de 2026 · Leitura de 9 min · Reconta Brasil
Ilustração da Cabanagem: cabanos armados nas margens do estuário amazônico

Nas cabanas de palafita do estuário amazônico nasceu a revolta que deu nome à Cabanagem.

O que foi a Cabanagem

A Cabanagem foi uma revolta popular que tomou conta da província do Grão-Pará entre 1835 e 1840. O nome vem das cabanas de palafita em que viviam os lavradores e pescadores ribeirinhos do estuário amazônico — gente pobre, parda e indígena que formou o grosso do movimento.

Foi a única revolta do Período Regencial em que as camadas populares chegaram efetivamente ao poder de uma capital de província. Os cabanos governaram Belém, nomearam presidentes saídos de suas próprias fileiras e resistiram por anos ao Império. O preço foi altíssimo: estima-se que entre 30 e 40 mil pessoas morreram — algo como 30% a 40% da população provincial. Nenhuma outra guerra civil do Brasil oitocentista foi tão mortal.

O Grão-Pará longe do Rio de Janeiro

Quando o Brasil se tornou independente, em 1822, o Grão-Pará mal se considerava parte dele. A província sempre se ligara diretamente a Lisboa, não ao Rio de Janeiro. A adesão paraense à Independência só veio em 1823, e de forma imposta: o oficial inglês John Pascoe Grenfell, a serviço do Império, encenou uma demonstração de força naval para forçar a rendição.

O episódio deixou uma ferida. Naquele mesmo ano, 256 presos políticos foram trancados no porão de uma galera apelidada de "brigue Palhaço", o navio São José Diligente — a maioria morreu asfixiada em uma só noite. A memória dessa violência ajudaria a alimentar a revolta uma década depois.

As causas da revolta

O Grão-Pará da década de 1830 era uma sociedade profundamente desigual. A elite branca e portuguesa controlava o comércio e a terra; a maioria da população — caboclos, indígenas tapuios, negros escravizados e forros — vivia na miséria, sujeita ao recrutamento militar forçado e a trabalho compulsório.

Havia também um conflito político. Fazendeiros liberais paraenses, descontentes com os presidentes de província nomeados de fora, queriam mais autonomia. Quando esses dois descontentamentos — o popular e o das elites locais — se encontraram, formou-se a coalizão explosiva que faria a Cabanagem.

A tomada de Belém

O estopim veio do Acará, região de rios ao sul de Belém. Em outubro de 1834, tropas do presidente Bernardo Lobo de Souza queimaram a fazenda da família Malcher. A tensão cresceu até estourar.

Na madrugada de 6 para 7 de janeiro de 1835, os cabanos tomaram Belém. Lobo de Souza foi morto — pelo tapuio Domingos Onça, conta a tradição. O fazendeiro liberal Félix Malcher tornou-se o primeiro presidente cabano. Pela primeira vez, uma capital de província brasileira passava às mãos de um governo saído de uma revolta popular.

Malcher, os Vinagre e Angelim

O governo cabano foi instável e dividido. Malcher, fazendeiro escravista, queria moderar o movimento — e isso o pôs em rota de colisão com a ala mais radical. Em 20 de fevereiro de 1835, foi arrastado e morto pela própria multidão cabana. A liderança passou a Francisco Vinagre, lavrador, segundo presidente.

Em junho de 1835, sob promessa de anistia, Francisco Vinagre entregou Belém ao marechal imperial Manoel Jorge Rodrigues. A palavra foi quebrada na hora: Vinagre acabou preso. Os cabanos voltaram às armas. Em agosto, depois de nove dias de combates em que morreu Antônio Vinagre, irmão de Francisco, retomaram a capital. A liderança coube então a Eduardo Angelim, cearense de apenas 21 anos, terceiro e último presidente cabano.

Os cabanos governaram Belém com presidentes saídos de suas próprias fileiras — algo inédito no Brasil regencial. Mas a revolta jamais se uniu em torno de um único projeto.

A repressão de Soares de Andrea

O Império respondeu enviando um militar de mão pesada: Francisco José de Sousa Soares de Andrea, engenheiro militar com plenos poderes de guerra. Em 9 de abril de 1836, Andrea entrou em Belém sem combate — os cabanos haviam recuado para o interior.

Começou então uma repressão metódica e brutal. Andrea perseguiu os cabanos rio adentro, atacou seus refúgios fortificados — os mocambos — e em 1838 decretou a chamada Lei nº 2, que legalizava o trabalho forçado de indígenas, mestiços e pretos sem propriedade. A guerra militar virou também guerra de controle social. Em 1840, o último foco organizado de resistência se rendeu.

O custo humano e o silêncio

O saldo da Cabanagem foi devastador. As estimativas mais aceitas falam em 30 a 40 mil mortos em cinco anos de guerra — uma fração enorme de uma população que mal passava de cem mil habitantes. A província saiu arrasada, despovoada, traumatizada.

Depois veio o silêncio. Eduardo Angelim foi exilado em Fernando de Noronha e só voltaria ao Pará em 1851. Soares de Andrea, ao contrário, foi recompensado: em 1855, Pedro II o fez Barão de Caçapava. A revolta dos pobres da Amazônia ficou décadas à margem da história oficial — narrada quase só pela ótica de seus adversários.

Por que a Cabanagem importa

A Cabanagem é hoje reconhecida como a maior e mais radical das revoltas do Período Regencial. Foi o momento em que a população mais pobre da Amazônia — caboclos, indígenas e escravizados — disputou de fato o poder, e não apenas pediu reformas. Ao lado da Sabinada, da Balaiada e da Farroupilha, mostra que o Brasil das Regências esteve muito perto de se desfazer.

Recuperar essa história é também recuperar vozes que foram caladas. Hoje, a Cabanagem é tema obrigatório de vestibulares e do ENEM — e um lembrete de que a construção do Estado brasileiro foi feita também de guerra, repressão e resistência popular.

A Cabanagem em datas

  • 1823 — adesão imposta do Grão-Pará ao Império; tragédia do brigue São José Diligente.
  • 7/1/1835 — cabanos tomam Belém; Lobo de Souza é morto; Malcher assume.
  • 20/2/1835 — Malcher é morto pela multidão; Francisco Vinagre assume.
  • agosto de 1835 — retomada de Belém; Eduardo Angelim torna-se presidente cabano.
  • 9/4/1836 — Soares de Andrea entra em Belém e inicia a repressão.
  • 12/7/1837 — queda de Ecuipiranga, o maior mocambo cabano.
  • 1838 — Lei nº 2 legaliza o trabalho forçado dos pobres da província.
  • 1840 — rende-se o último foco organizado da revolta.

Veja a Cabanagem em painéis ilustrados

No app Reconta Brasil, a Cabanagem é uma série completa — episódio a episódio, com narração em português e arte original em aquarela e tinta.

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