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História do Brasil

Mulheres negras na história do Brasil: Dandara, Aqualtune, Tereza de Benguela e outras

A história oficial do Brasil reservou poucas linhas às mulheres negras que organizaram quilombos, comandaram exércitos e fundaram cidades. Algumas delas vêm sendo reescritas nas últimas décadas. Estas são as histórias — e o que sabemos (e não sabemos) sobre cada uma.

Publicado em 23 de maio de 2026 · Leitura de 10 min · Reconta Brasil
Ilustração de mulheres e homens quilombolas na serra da Barriga, Palmares, século XVII

No alto da serra da Barriga, Palmares foi por quase cem anos uma sociedade negra livre — fundada e liderada por mulheres em várias gerações.

Aqualtune (séc. XVII)

A história começa muito antes de Palmares — começa em Angola, no antigo reino do Congo. Segundo a tradição, Aqualtune era princesa do reino congolês e comandou uma tropa de dez mil soldados na batalha de M'Bwila contra os portugueses. Foi derrotada, capturada e embarcada como escravizada para o Brasil, junto com filhos e netos.

Levada para um engenho em Pernambuco, escapou — e atravessou o sertão até o quilombo que ficaria conhecido como Palmares, na serra da Barriga (atual Alagoas). Lá, fundou um mocambo próprio, chamado Acotirene em sua homenagem. Aqualtune é considerada a matriarca da linhagem dos chefes de Palmares: mãe de Ganga Zumba, avó de Zumbi.

É importante dizer: a documentação histórica sobre Aqualtune é frágil. Boa parte do que sabemos vem de tradições orais reconstruídas no século XX. Mas o papel das mulheres como matriarcas dos quilombos — esse, sim, é amplamente documentado. Leia mais sobre Palmares.

Acotirene

Outro nome poderoso de Palmares. Acotirene foi uma anciã, líder espiritual e matriarca de um dos mocambos centrais do quilombo, batizado com seu nome. Documentos coloniais portugueses fazem referência a Acotirene como uma das figuras mais respeitadas da comunidade — uma sacerdotisa e conselheira dos guerreiros e dos líderes.

Sua importância revela algo essencial sobre a organização social dos quilombos: Palmares não era apenas uma fortaleza militar. Era uma sociedade complexa, com hierarquias civis, religiosas e familiares — e em todas elas, mulheres mais velhas exerciam autoridade reconhecida.

Dandara dos Palmares (séc. XVII)

Talvez o nome mais conhecido desta lista. Dandara teria sido companheira de Zumbi e mãe de seus três filhos. Lutou ao lado dele em várias batalhas — segundo a tradição, treinava lanceiras mulheres do quilombo e participava de assembleias de guerra.

Quando o exército português, em fevereiro de 1694, finalmente arrasou o Macaco — capital de Palmares — Dandara teria sido capturada. Diz a tradição que, para não voltar ao cativeiro, ela se atirou de uma pedreira. Morreu livre.

Aqui também vale a ressalva: a figura histórica de Dandara é mais incerta do que a memória popular sugere. Não há documentação portuguesa direta sobre ela — seu nome aparece apenas em fontes posteriores. Mas isso não a torna menos real: significa apenas que sua história foi resgatada por descendentes e estudiosos negros a partir do século XX, em um trabalho de reescrita da história brasileira. Leia mais sobre Zumbi.

Tereza de Benguela (séc. XVIII)

Cem anos depois de Palmares, no coração do Mato Grosso, surgiu outro grande quilombo: o Quilombo do Quariterê, também conhecido como Quilombo do Piolho. Era uma comunidade mista — quilombolas africanos, indígenas paiaguás e bororos. Tinha cerca de 100 cabanas e uma economia organizada: plantava algodão, mandioca e milho, fabricava tecidos.

À frente do quilombo, depois da morte do líder José Piolho, estava Tereza de Benguela. Os documentos portugueses a chamaram de "rainha Tereza". Sob seu governo, o Quariterê tinha um conselho que discutia decisões, uma casa de armas própria e mantinha comércio com mineradores brancos da região.

Em 1770, uma expedição portuguesa atacou e destruiu o quilombo. Tereza foi capturada e, segundo a documentação, terminou a vida na prisão — alguns historiadores acreditam que se suicidou. 25 de julho, hoje, é o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, instituído por lei brasileira em 2014.

Maria Felipa de Oliveira (séc. XIX)

A história sai dos quilombos e vai para a Bahia da Independência. Em 1822, quando D. Pedro I proclamou a independência do Brasil, as tropas portuguesas ainda ocupavam Salvador. A guerra de libertação da Bahia se estendeu até 2 de julho de 1823, data celebrada até hoje no estado.

Em Itaparica, à frente das ações populares contra os portugueses, estava Maria Felipa de Oliveira, marisqueira, capoeirista e parteira. Diz a tradição que ela liderou um grupo de 40 mulheres em ataques noturnos às tropas lusitanas, queimando navios na praia da Ponta de Areia com galhos de cansanção — uma planta urticante — e enxotando soldados a chibatadas e socos.

Maria Felipa foi oficialmente reconhecida como heroína da independência da Bahia pelo governo do estado. Sua história, por décadas omitida dos livros, está hoje em currículos escolares baianos.

Caetana Garcia (séc. XIX)

No Rio Grande do Sul, durante a Revolução Farroupilha, a tropa dos lanceiros negros — um corpo de cavalaria formado por escravizados libertos pela República rio-grandense — era a unidade mais temida do conflito. Entre suas figuras de retaguarda esteve Caetana Garcia, mulher negra e companheira de um dos líderes lanceiros.

Em dezembro de 1840, quando os farrapos atravessaram a serra em condições brutais durante a campanha do Viamão, Caetana acompanhou a tropa, cuidou de feridos e ajudou a manter a coesão do grupo. Seu nome aparece em documentos do diário de marcha. Leia mais sobre a Farroupilha.

Como tantas outras, sua história ficou enterrada por mais de um século. Foi resgatada por historiadoras gaúchas nas últimas três décadas, em uma reescrita necessária da memória regional.

Por que essas histórias quase desapareceram?

A documentação colonial e imperial do Brasil foi feita, em sua maior parte, por homens brancos europeus. Eles registravam o que lhes parecia importante: nomes de governadores, comandantes, padres, donos de engenho. As mulheres negras, livres ou escravizadas, aparecem nesses documentos quase sempre como número, mercadoria ou nota de margem.

O que sabemos hoje sobre Aqualtune, Dandara, Acotirene, Tereza, Maria Felipa e Caetana é fruto de um trabalho de décadas de historiadoras e historiadores negros, comunidades quilombolas remanescentes, e tradições orais que sobreviveram. Algumas figuras são mais documentadas (Tereza de Benguela, Maria Felipa); outras, mais lendárias (Dandara, Aqualtune). Mas todas são reais — no sentido que importa: foram lembradas.

Linha do tempo

  • séc. XVII — Aqualtune chega ao Brasil e funda o mocambo Acotirene em Palmares.
  • séc. XVII — Acotirene exerce liderança espiritual em Palmares.
  • 1694 — Macaco, capital de Palmares, é destruído; Dandara morre livre.
  • 1770 — Quilombo do Quariterê é arrasado; Tereza de Benguela é capturada.
  • 1823 — Maria Felipa lidera ataques a tropas portuguesas em Itaparica.
  • 1840 — Caetana Garcia acompanha lanceiros negros na Farroupilha.
  • 2014 — Lei federal institui 25/7 como Dia Nacional de Tereza de Benguela.

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