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Personagem

Anita Garibaldi: a brasileira que ajudou a unificar a Itália

Em 27 anos de vida, Ana Maria de Jesus Ribeiro atravessou um oceano, lutou em duas revoluções, teve quatro filhos e virou símbolo de dois países. Quando morreu, grávida e febril, era a mulher mais famosa da Europa do meio do século XIX. No Brasil, durante quase cem anos, ninguém quis lembrar.

Publicado em 23 de maio de 2026 · Leitura de 9 min · Reconta Brasil
Ilustração de uma mulher a cavalo, com lança, durante a Revolução Farroupilha

Em Laguna, Imbituba e Curitibanos, Anita lutou ao lado dos farrapos antes de seguir Garibaldi para a Itália.

Ana Maria de Jesus Ribeiro

Ela não se chamava Anita. Nasceu Ana Maria de Jesus Ribeiro, em 30 de agosto de 1821, em Morrinhos (hoje distrito de Tubarão, Santa Catarina). Filha de imigrantes açorianos, vinha de uma família pobre, com nove irmãos. Cresceu em Laguna, cidade pesqueira no litoral catarinense.

Era considerada por todos uma menina diferente: forte, falava alto, montava a cavalo melhor que muitos homens. Sabia atirar. Aos 14 anos, foi casada com um sapateiro chamado Manuel Duarte de Aguiar. O casamento era convencional para o tempo — ela, jovem demais; ele, alistado nas forças do Império. Manuel partia em campanhas, Ana ficava só. Não tiveram filhos.

O encontro com Garibaldi

Em julho de 1839, o exército farrapo da República Rio-Grandense tomou Laguna sem disparar um tiro. Os farrapos proclamaram, ali, a República Juliana — uma república catarinense aliada da Piratini. À frente da marinha rebelde, vinha um italiano de 32 anos, exilado político em fuga da Itália austríaca: Giuseppe Garibaldi.

Ele a viu pela primeira vez pelo binóculo, do convés de seu navio ancorado em Laguna. Desembarcou e foi conhecê-la. Anita estava casada — mas o marido havia desaparecido nas tropas imperiais. Não voltaria. Em sua autobiografia, escrita anos depois, Garibaldi descreveu o momento exato: "Senti-me um culpado: havia roubado uma esposa a um homem. Mas a culpa não me curou. Estava perdido."

Eles fugiram juntos no navio Rio Pardo. Anita tinha 18 anos. Manuel Duarte nunca mais apareceu — alguns historiadores acreditam que ele já havia morrido em combate antes da fuga.

A guerreira de Laguna a Curitibanos

A partir de Laguna, Anita não foi mais passageira: foi combatente. Vestiu calças, carregou pistola, andou armada. Em novembro de 1839, durante a retomada de Laguna pelos imperiais, ela estava no convés do Rio Pardo durante o bombardeio. Quando o navio começou a afundar, recuperou caixas de munição embaixo de fogo. Ferida, recusou ser desembarcada. Garibaldi escreveu: "A combatente continuava a atirar."

Em 1840, ela participou da batalha de Curitibanos. Foi capturada por tropas imperiais. Fugiu. Atravessou matas e rios sozinha — grávida — por dezenas de quilômetros até encontrar Garibaldi acampado nos confins do Rio Grande do Sul. Quando o reencontrou, deu à luz o primeiro filho, Menotti, sob uma chuva torrencial e à beira do fogo, em 16 de setembro de 1840.

Nos meses seguintes, a família atravessou a serra a pé, em meio ao inverno e à fome. Caetana Garcia, a companheira de um dos líderes lanceiros, ajudou a manter a tropa unida. Leia o artigo completo sobre a Farroupilha.

O exílio no Uruguai

Em 1841, com a guerra farrapa entrando em derrocada, Garibaldi decidiu deixar o Brasil. A família foi para Montevidéu, no Uruguai, onde Garibaldi se juntou à defesa da capital contra o ditador argentino Rosas. Foi em Montevidéu que Anita e Giuseppe finalmente se casaram, em 1842, depois da confirmação da morte de Manuel Duarte.

Em Montevidéu, a família cresceu: Rosita (que morreria criança), Teresita, Ricciotti. Garibaldi virou figura central da resistência uruguaia. Anita, mãe de quatro filhos pequenos, comandava a casa — mas continuava treinando.

A Itália do Risorgimento

Em 1848, a Europa explodiu em revoluções liberais. Garibaldi foi chamado de volta à Itália. Anita embarcou com os filhos, deixando o caçula com uma vizinha — Ricciotti era pequeno demais para a travessia. Chegou a Gênova em 1848, sob aclamação pública: já era figura conhecida pelos jornais europeus, a eroina dei due mondi"heroína dos dois mundos".

Na defesa da República Romana de 1849 contra as tropas francesas que protegiam o Papa, Anita lutou novamente. Comandou destacamentos. Quando a República caiu, em julho de 1849, ela fugia com Garibaldi e poucos seguidores pelas montanhas dos Apeninos, perseguida pelas tropas austríacas. Estava grávida de novo e febril, com tifo ou malária — os médicos da época nunca tiveram certeza.

A morte em Mandriola

Em 4 de agosto de 1849, Anita morreu em uma cabana de camponeses na fazenda Guiccioli, perto de Comacchio, na região de Ravena. Tinha 27 anos. Garibaldi, perseguido pelos austríacos, não pôde sequer fazer um enterro digno — o corpo foi enterrado em uma cova rasa pelos próprios camponeses que os acolheram.

Quando, anos depois, Garibaldi voltou ao local para recuperar os restos, soube que cães haviam desenterrado parte do corpo. Carregou, pelo resto da vida, a culpa de não ter conseguido protegê-la — nem viva, nem morta. Em 1932, sob o regime fascista de Mussolini, Anita foi finalmente sepultada em um monumento gigantesco no alto do Janículo, em Roma, ao lado de uma estátua equestre sua, de bronze.

A memória dividida

Na Itália, Anita virou símbolo nacional. Há ruas, escolas, monumentos com seu nome em quase toda cidade italiana. No Brasil, durante mais de um século, foi esquecida — vista pela elite como personagem secundária do drama de Garibaldi. Só nas últimas décadas, com o resgate da memória feminina e da Farroupilha, ela voltou ao centro: em Laguna, sua cidade, há hoje um Museu Anita Garibaldi no casarão onde teria vivido.

Ela é, hoje, oficialmente considerada heroína nacional tanto pelo Brasil quanto pela Itália. Caso raro na história mundial.

Anita era meu tesouro, e não menos ardente para a causa sagrada dos povos do que eu mesmo. Olhava para as batalhas como entretenimento e para os incômodos da vida no acampamento como um divertimento. — Giuseppe Garibaldi

A vida de Anita Garibaldi em datas

  • 30/08/1821 — nasce Ana Maria de Jesus Ribeiro, em Morrinhos (SC).
  • 1835 — aos 14 anos, casa-se com Manuel Duarte de Aguiar.
  • jul. 1839 — farrapos tomam Laguna; Anita conhece Garibaldi.
  • nov. 1839 — combate a bordo do Rio Pardo na retomada imperial de Laguna.
  • 16/09/1840 — nasce Menotti, na serra catarinense.
  • 1841 — família foge para Montevidéu, Uruguai.
  • 1842 — casamento oficial com Garibaldi.
  • 1848 — Anita parte para a Itália com os filhos.
  • 1849 — luta na defesa da República Romana.
  • 04/08/1849 — morre na fazenda Guiccioli, perto de Ravena.
  • 1932 — restos sepultados no monumento do Janículo, em Roma.

Veja a Farroupilha em painéis ilustrados

A história de Anita, Garibaldi, Bento Gonçalves e o massacre de Porongos está no app Reconta Brasil — em uma série completa, em aquarela e tinta, com narração em português brasileiro.

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