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História do Brasil

A imigração japonesa no Brasil: do Kasato Maru à Liberdade

Em 1908, um navio atracou em Santos com 781 japoneses a bordo. Cem anos depois, o Brasil abrigava a maior comunidade japonesa fora do Japão. Entre os dois pontos, há uma história de café, fuga, guerra e reinvenção.

Publicado em 19 de maio de 2026 · Leitura de 9 min · Reconta Brasil
Ilustração de imigrantes japoneses chegando ao porto de Santos no navio Kasato Maru

O Kasato Maru atracou em Santos em 18 de junho de 1908 — o marco zero da imigração japonesa.

Por que o Japão começou a emigrar

No início do século XX, o Japão vivia as transformações aceleradas da Era Meiji. A modernização industrial andava lado a lado com a pobreza no campo: famílias camponesas — muitas em Okinawa, Kagoshima e Yamaguchi — enfrentavam terras escassas e dívidas crescentes. Emigrar virou saída.

O Brasil, por sua vez, ainda precisava de braços para a lavoura de café. Acordos para canalizar imigração europeia haviam esfriado, e companhias de emigração japonesas firmaram contratos para levar trabalhadores ao Sudeste paulista. Foi assim que dois países distantes — um buscando trabalho, outro buscando trabalhadores — se encontraram.

O Kasato Maru, 1908

O navio Kasato Maru partiu do porto de Kobe em 28 de abril de 1908 e, após cerca de 52 dias de travessia, atracou no porto de Santos em 18 de junho de 1908. Trazia 781 imigrantes japoneses — o grupo fundador da imigração japonesa no Brasil.

Da Hospedaria de Imigrantes do Brás, as famílias foram distribuídas entre fazendas de café do interior paulista, entre elas a Fazenda Dumont, na região de Ribeirão Preto. A expectativa era enriquecer rápido e voltar ao Japão. A realidade foi outra.

O choque do colonato

Nas fazendas, os japoneses caíram no sistema de colonato: a família assumia um lote de café, era paga pela colheita e morava em casas precárias, muitas vezes endividada com o armazém da fazenda. A barreira da língua tornava tudo mais difícil. O salário sonhado não aparecia; o regresso ao Japão recuava no horizonte.

O choque cultural foi imenso. Greves espontâneas, cartas de queixa ao consulado e conflitos com feitores marcaram os primeiros anos. Para muitas famílias, a fazenda de café não era destino: era armadilha.

Vieram para enriquecer e voltar. Ficaram — e refizeram a própria ideia de pátria no caminho.

Fugas e a terra própria

A resposta veio na forma da yonige — a "fuga noturna". Famílias inteiras abandonavam as fazendas na calada e iam comprar ou arrendar terra própria, sobretudo no oeste paulista e norte do Paraná. Trocavam o café alheio pela lavoura própria de algodão, hortaliças, café e arroz.

Foi essa busca por autonomia que transformou os japoneses, em poucas décadas, num dos pilares da agricultura brasileira — em especial da horticultura que abastecia as cidades.

As colônias: Bastos e o oeste paulista

No fim da década de 1920, empresas japonesas passaram a comprar grandes glebas para fundar colônias planejadas. A mais conhecida é Bastos, no oeste paulista, criada no fim dos anos 1920 e que se tornou uma das maiores colônias agrícolas japonesas do país — célebre, mais tarde, pela avicultura.

Em São Paulo, a vida comunitária se organizava: surgiam escolas de língua japonesa, jornais em japonês e, em 1926, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, o Bunkyo. A colônia construía suas próprias instituições.

A Segunda Guerra e a Shindo Renmei

Tudo isso foi golpeado pela guerra. Em 1942, o Brasil rompeu com o Eixo e declarou guerra à Alemanha, à Itália e ao Japão. Os japoneses passaram a "súditos do inimigo": o idioma japonês foi proibido em público, escolas foram fechadas, jornais silenciados, famílias removidas do litoral e bens confiscados.

Com a derrota do Japão em 1945, a colônia se rachou. A maioria — os kachigumi — recusava-se a aceitar que o Japão tinha perdido a guerra. A minoria — os makegumi — aceitava a rendição. Dessa fratura nasceu a Shindo Renmei, organização ultranacionalista responsável por dezenas de assassinatos de japoneses "derrotistas" entre 1946 e 1947. Foi um dos episódios mais sombrios da história da comunidade.

A Liberdade e o movimento dekassegui

Superada a guerra, a comunidade se reergueu. Em São Paulo, o bairro da Liberdade consolidou-se nos anos 1950 como o coração nipo-brasileiro — comércio, restaurantes, festas e instituições culturais. A integração avançou: nasciam nisseis e sanseis plenamente brasileiros.

Na virada para os anos 1990, surgiu um movimento inverso. Com a economia japonesa aquecida e a brasileira em crise, milhares de descendentes — os dekasseguis — foram trabalhar nas fábricas do Japão. A diáspora que tinha vindo do Japão começava a voltar, agora como brasileiros num país de avós.

2008: o centenário

Em 2008, o Brasil celebrou os cem anos do Kasato Maru. As comemorações reuniram multidões e a visita do então príncipe herdeiro Naruhito. O número falava por si: o Brasil abriga a maior população de origem japonesa fora do Japão. De 781 imigrantes a milhões de descendentes, a travessia de 1908 havia se tornado parte definitiva da história brasileira.

A imigração japonesa em datas

  • 28/04/1908 — o Kasato Maru parte de Kobe rumo ao Brasil.
  • 18/06/1908 — o navio atraca em Santos com 781 imigrantes.
  • 1926 — fundação do Bunkyo, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa.
  • fim dos anos 1920 — criação da colônia agrícola de Bastos.
  • 1942 — Brasil declara guerra ao Eixo; o idioma japonês é proibido.
  • 1946–1947 — auge dos conflitos da Shindo Renmei.
  • anos 1950 — a Liberdade firma-se como bairro nipo-brasileiro.
  • 2008 — centenário da imigração japonesa no Brasil.

Veja esta travessia em painéis ilustrados

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